Kosovo: ser ou não ser

EUA e União Européia atiçam a independência, mas permanecem indeferentes à pobreza profunda da região

Dezenas de milhares de pessoas festejaram no domingo (17/2), em Pristina (Kosovo) a declaração de independência desta até então província sérvia, habitada por pelo menos seis etnias, mas com ampla maioria (95%) de origem albanesa. O movimento foi visto como natural e democrático. Fortemente oprimidos pela Sérvia, durante o governo de Slobodan Milosevic, por que os kosovares não teriam direito à autonomia?

Esta, aliás, foi preparada ao longo de anos. Desde 1999, Kosovo vive sob condição de um protetorado da ONU, com segurança feita por tropas da OTAN. Em janeiro de 2007, o finlandês Marti Antisaari, enviado especial das Nações Unidas para a antiga província, formulou um plano “de paz” que tomava todas as medidas para a independência — embora não a chamasse pelo nome. Em junho do mesmo ano, o presidente dos EUA, George Bush, recebido por uma multidão em Pristina, afirmou que “é preciso dizer basta, quando as negociações se prolongam demais”. Sintomaticamente, EUA e os “quatro grandes” europeus (França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália) apressaram-se a reconhecer o novo Estado (que ainda não tem existência para a ONU).

Algumas análises mostram, contudo, que esta é apenas a superfície do problema. Num editorial publicado em julho do ano passado, no Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet pergunta, tendo em vista a declaração de Bush: “Por que cinqüenta anos não foram suficientes para criar um Estado independente na Palestina (com as trágicas e conhecidas conseqüências) e, em contrapartida, é necessário solucionar a questão do Kosovo o mais rapidamente possível? A questão havia sido aprofundada, no mesmo jornal, em texto de Jean-Arnault Dérens. Sem questionar o direito dos kosovares à independência, Dérens chama atenção para alguns interesses que estavam por trás da proposta, já na época.

O primeiro é a tutela que EUA e União Européia sobre a nova nação. ONU e OTAN, lembra ele, jamais procuraram criar condições — autonomia progressiva dos dirigentes, condições para que adquiram experiência política e mantenham relações internacionais — para o surgimento de um Estado verdadeiro. Em vez disso, aliaram-se a administradores kosovares freqüentemente corruptos, muitas vezes identificados pela população como a “máfia dos 4 X 4 brancos (cor da ONU). Além disso, as potências que estimularam a “independência” mantiveram-se sempre indiferentes à pobreza e a crise humanitária do Kosovo. A economia está destruída há anos, 60% da população não tem trabalho, 90% dos bens consumidos são importados. A assistência internacional é irrisória: durante todo o ano de 2007, os EUA, por exemplo, contribuíram com 77 milhões de dólares — menos do que gastam a cada hora com despesas militares.

(Continua na postagem a seguir)

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3 Responses to “Kosovo: ser ou não ser”

  1. Acho que o texto deveria mencionar que existe uma base militar norte-americana em Kosovo e que este parece ser o principal motivo da independência adquirida a toque de caixa. Hoje a Espanha não reconheceu a independência de Kosovo, ao contrário dos sempre aliados dos EUA.

  2. Aluizio.

    Tem inteira razão o leitor Menjol. Os Estados Unidos mantêm uma das maiores bases militares no estrangeiro(são cerca de 7.000 militares norte-americanos) exatamente em Kosovo, o chamado Camp Bondsteel. O protesto russo não é gratuito.

  3. Só li agora, em junho.

    O texto não foi construído com tanto cuidado, tanto no aspecto formal quanto informativo. Dizer que a Iugoslávia estava na esfera de influência de Moscou só pode ser fruto de desconhecimento histórico, de não saber o que foi o racha de 1948, o período do Informbiro e o Movimento Não-Alinhado. Em segundo, não considera as diferenças ideológicas e de projeto político entre Iéltsin e Putin. E, em terceiro, esquece de levantar aspectos essenciais da questão, como o projeto de anexação do Kosovo pela Albânia (o que retoma uma mudança de fronteiras realizada pelos fascistas italianos em 1941). Chamar os Bálcãs de “região explosiva” é perpetuar velhos estereótipos. O Diplô é capaz de aprofundar muito mais do que isso.

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