Uribe e as FARC: violência interessa a ambos

By Antonio Martins

quinta-feira, 6 março 2008

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Estranho sinal: o grupo “guerrilheiro” teria se transformado na principal fonte de legitimidade do presidente de ultra-direita

Estamos reunindo material para um texto sobre a Colômbia. Opiniões e o envio de artigos são muito bem-vindos. Segue o link para dois textos publicados recentemente no Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique, com bons subsídios ao exame do tema. Algumas hipóteses preliminares, com base nos artigos citados e em muitos contatos com integrantes da sociedade civil e movimentos sociais colombianos são:

1. As políticas criminosas do presidente Uribe têm sido enfrentadas por um movimento social ativo e vibrante, cujo tema central tem sido, nos últimos anos, o combate à violência. Graças a mobilização social, os índices de criminalidade reduziram-se drasticamente, por exemplo, em cidades como Bogotá e Medellin. Influiu igualmente a eleição, em especial em Bogotá, de um seqüência de prefeitos do Pólo Democrático, uma frente à esquerda. Nestas cidades há uma forte cultura de paz, que começa a se irradiar pelo país. O texto sobre as eleições traz muitos dados a respeito.

2. Uribe sofreu durante muitos meses um processo crescente de isolamento político, que terminou na desarticulação de seu grupo parlamentar de apoio, nas últimas eleições municipais. Além disso, seus laços com os paramilitares tornaram-se explícitos e muitos de seus acordos com tais grupos foram considerados inconstitucionais pela Corte Suprema, que é bastante democrática.

3. O grande trunfo político de Uribe é o sua alegada condição de homem capaz de enfrentar as FARC. Não se trata de um grupo guerrilheiro que luta em favor de uma causa, mas essencialmente de um bando criminoso. Seu apoio entre a população é próximo de zero. Segundo pesquisas, 2% os vêem como um grupo que contribui positivamente para o país. Há motivos para isso. As FARC mantêm centenas de reféns, inocentes seqüestrados como forma de fazer dinheiro. As FARC promoveram dezenas de assassinatos políticos, inclusive contra  diversos parla mentares e prefeitos de esquerda. As dinâmica ultra-militarista das FARC as mantém alienadas da vida política real do país. Sua lógica já não leva em conta o apoio popular, mas essencialmente a capacidade de manterem viva sua própria estrutura — o que é feito em grande medida por meio do crime comum.

4. As FARC tornaram-se, portanto, o *principal fator de legitimidade política de Uribe*. O presidente *precisa* delas, para recuperar popularidade. Assim como fazia o espanhol José Maria Aznar com o ETA, cada arroubo contra as FARC é um aumento garantido de popularidade do presidente. E qualquer tentativa de queimar a oposição de esquerda começa insinuando que esta tem vínculos com o grupo. Em contrapartida, nada mais cômodo para as FARC do que usar, como pretexto para sua lógica militarista e criminosa, a existência de um governo de ultra-direita aliado aos EUA…

Seguem os links para os textos.

Colômbia: as vozes da guerra
Decretado pelo presidente Uribe, fim das negociações para troca de reféns revela: tanto governo quanto as FARC sabotaram a paz, porque vêem nas armas sua fonte de legitimidade e poder. Desfecho ressalta papel da sociedade civil no fim do conflito e na construção de nova democracia

Jaime Zuluaga Neto
26 de novembro de 2007

A paz invade o coração da Colômbia

Num país golpeado pela violência política, a sociedade civil reage humilhando, em eleições regionais, os grupos pára-militares e o presidente associado a eles. Apoio a Uribe é cada vez mais precário, e sistema partidário tradicional está em frangalhos

Simone Bruno
31 de outubro de 2007

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9 Responses to “Uribe e as FARC: violência interessa a ambos”

  1. É de uma complexidade esse assunto das farcs na colombia, como brasileiro espero que meu governo sempre na legitimidade das leis e da soberania de nosso pais mantenha uma vigilância em nossas froteiras, principalmente na floresta amazônica não deixando que respingos dessa guerra penetre em nosso país.E sempre pronto a servir como um pais lider no processo de pacificação da america do sul.

  2. Penso que uma edição sobre a Colombia será muito oportuna para esclarecer a contextualização das FARC no processo de emancipação econômica e social do povo latino-americano em curso. Desconfio que as FARC, não importa as suas intenções, não têm apenas dado legitimidade ao direitismo de Uribe, como também dado respaldo ideológico e mediatico ao intervencionismo norte-americano, cujo discurso democrático tenta obscurecer o real propósito de controle das suas fontes suprimento do ouro negro e do pó branco, fontes energéticas essenciais para manter o funcionamento de uma sociedade estranhamente competitiva, individualista, consumista, perdulária, contraditória e hipócrita, que se propõe a ser modelo de estilo de vida mundial.

  3. Pesquiso o conflito armado na Colômbia há cerca de 5 anos e, atualmente, este constitui o tema de minha pesquisa de Mestrado. Acho importante colocar alguns pontos aqui, com relação ao Uribe e às FARC:

    1. De fato, a esquerda colombiana tem saído fortalecida – a despeito de inúmeras tentativas de Uribe de frear esse processo, por exemplo a emenda constitucional de 2005 (se não me engano) – das últimas eleições. No entanto, a eleição e reeleição de Uribe à Presidência – com altos índices, diga-se de passagem (em 2006, foi eleito com 62%, apesar da alta abstenção) – podem ser interpretadas como a aposta e a aprovação dessa parcela (urbana) da população, que parece disposta a arriscar algumas de suas liberdades civis e troca de segurança. Com efeito, o fracasso das negociações levadas a cabo por Pastrana, antecessor de Uribe, impulsionaram a popularidade do então candidato Uribe, que apresentava um discurso mais duro em direção às guerrilhas.

    2. É importante considerar que as FARC, no início da década de 1990, tentaram recorrer à via política, por meio da formação do partido Unión Patriótica. A UP chegou a consquitar 14 cadeiras no Congresso, mas seus membros sofreram perseguições e, muitos deles, foram assassinados por ação de grupos paramilitares.

    3. Uma interessante fonte de pesquisa para um acompanhamento das políticas de Uribe é o International Crisis Group. Eles possuem relatórios muito interessantes sobre a Colômbia.

  4. O problema colombiano atualmente é parte de uma questão mais ampla: a do avanço das forças populares na América do Sul. Os Estados Unidos aproveitam o conflito interno na Colômbia para fortalecer o presidente Uribe e, dessa forma, manter o poder na Colômbia nas mãos da direita. Não interessa à direita colombiana nem aos Estados Unidos a incorporação política das FARC à sociedade colombiana, pois isto levaria a esquerda ao poder. A direita nos demais paises sulamericanos também tem estado mobilizada para impedir o avanço das forças populares. Isto se reflete na mídia, através de posicionamento favorável a Uribe e contrário a Chaves e, discretamente, aos governos de esquerda de Brasil, Argentina, Equador e Bolívia. Isto naturalmente orquestrado a partir de Washington.

  5. “2. Uribe sofreu durante muitos meses um processo crescente de isolamento político, que terminou na desarticulação de seu grupo parlamentar de apoio, nas últimas eleições municipais. Além disso, seus laços com os paramilitares tornaram-se explícitos e muitos de seus acordos com tais grupos foram considerados inconstitucionais pela Corte Suprema, que é bastante democrática.”

    Gostaria de lembrar que, grande parte deste isolamento se deu pela estratégia guerrilheira que aponta decididamente para um processo de paz.
    Isto foi esquecido e não pode ser esquecido pelo autor do futuro artigo.
    Se devemos condenar a violência que parte das FARC, só podemos o fazÊ-lo na medida em que reconheçamos que os esforços em favor da paz sempre tem partido dos guerrilheiros e que o atual esforço pela troca humanitária, além de mostrar intenções pacifistas, contribuiu sobremaneira para o isolamento de Uribe
    Contribuição mais valiosa para a quebra do isolamento de Uribe fizeram alguns (eu disse alguns) membros do Pólo que aderiram à marcha paramilitar do dia 13 de fevereiro (que, felizmente, saiu do controle dos seus promotores).

    Outra questão de relevância
    Não entendi as áspas na palavra guerrilheiros.
    Se refére-se ao pretenso relacionameno dos guerrilheiros com o tráfico, lembro que não há nenhum indício definitivo de que istó seja realidade, só notícias policialescas. Vale também perceber de que seria de uma imbecilidade amébica por parte da guerrilha atuar no “mesmo ramo” que é totalmente dominado por seus princiapais inimígos, que sejam, o governo, cuja ligação com o tráfico é mais do que comprovada, e os para-militares.

    Por fim, lembrando e tornando mais exato o expressado por Manuela, reconheçamos que as FARC buscaram e conseguiram legalidade entre a segunda metade da década de 1980 e o início da de 90, e que só a deixaram devido ao massacre de mais de 2000 de seus militantes, parlamentares e candidatos (se somarmos os membros da UP que continuaram sendo assassinados até hoje, os números são próximos de 5000).

    O Le Monde é uma instituição jornalística séria e não pode se basear em dados policialescos como faz a “imprensa” (esta sim com áspas) que apoia Uribe.
    Examinar esta questão da participação das FARC no tráfico (no tráfico de cocaína, não na produção de folha coca, que, lembrem-se, é consumida por quase todos nós, todos os dias – coca cola, pepsi, etc) antes de emitir opiniões em entrelinhas seria importante para a credibilidade do artigo.

    Assinalo, por fim, que apesar destas duas insuficiências, que acredito sejam sanadas na obra final, a linha que está sendo estabelecida para o artigo é bastante interessante e precisa na maioria dos pontos.
    Parabéns pela iniciativa.

  6. As FARC política e as políticas das FARC – parte I

    Nos últimos tempos, sobretudo em razão de trágicos acontecimentos, muito se tem falado a respeito do conflito colombiano e das FARC. Entretanto, interessante aspecto dessa abordagem é a mais completa ausência de uma análise histórica, ou mesmo de assimilação dos conceitos e percepções de origem popular sobre o tema. De tal forma, cumpre dar alguma contribuição, ainda que bastante rasa, tendo em vista a profundidade que o tema exige.

    É comum, aos detratores da guerrilha colombiana, apontá-las como um grupo terrorista, criminoso, essencialmente militarista e completamente desvinculado do povo ou das lutas populares. E isso é um erro que só se sustenta em razão dessa completa falta de abordagem histórica da guerrilha.

    Outra acusação comum é oriunda de setores ditos democráticos, de que as FARC, ou seriam criminosas e terroristas, ou de que se perderam em razão de sua limitação ao militarismo em essência, tendo que seu objetivo teria se transformado em apenas manter sua própria estrutura.

    Poderíamos questionar tais teses a partir da análise das fontes de dados e informações que as sustentam. Podemos apontar que tais elementos são assim postos fora da Colômbia, ou nos grandes centros urbanos de predominância de uma classe média típica, que representa menos de 20% da população do país. E poderíamos apontar que as fontes de tais versões são plenamente identificáveis, basicamente em dois grandes veículos de informação, a Revista Semana, crítica aberta de todos os movimentos populares colombianos e do jornal El Tiempo, sob controle econômico de Francisco Santos, vice-presidente colombiano. Entretanto, deixaremos isso para um segundo plano, pois que a simples verificação da realidade histórica já nos basta à análise.

    Sobre a essencialidade puramente militar da guerrilha, cabe lembrar sua origem, seu nascimento, na região de Marquetélia, há 44 anos atrás.

    Desde 1946, sob o governo de Mariano Ospina Pérez, a Colômbia viveu sob um regime de puro terror, com os massacres cotidianos de trabalhadores e camponeses, de todos os militantes liberais e comunistas. Foi um tempo em que qualquer voz que denunciasse os crimes era calada definitivamente, como foi o caso de Jorge Eliecer Gaitán, o mais célebre combatente contra a política terrorista de então, brutalmente assassinado pelo regime.

    Nesse período, dominado fundamentalmente pela ingerência de grupos econômicos privados estrangeiros nas áreas urbanas, enquanto dominavam os grupos de grandes latifundiários conservadores na área rural, foi marcante para toda a história posterior da Colômbia.

    O domínio pleno, sem lei, de grandes latifundiários conservadores na zona rural, levou não apenas à violência habitual em situações de mesmo tipo, mas também à trágica experiência da “reforma agrária às avessas”, em que os pequenos proprietários e camponeses eram expulsos de suas terras à força, ou em caso de resistência eram assassinados com toda a família, tendo suas terras anexadas às grandes propriedades de então.

    Foi nesse cenário que se formou uma aliança inusitada, fruto da necessidade urgente, do desespero popular, entre os comunistas e os liberais, para organizar a resistência popular, em defesa da vida desses camponeses e de suas pequenas propriedades de que necessitavam para a sobrevivência.

    Tal aliança, evidentemente, teve grande força, conquistando inúmeras vitórias populares para a época, que hoje, no mundo dito democrático se diriam fundamentais. Mas as possibilidades de tal movimento estavam muito além dessas pequenas conquistas. Porém conquistas maiores não eram interessantes nem mesmo aos liberais.

    Em 1953, com um golpe de Estado que levou Gustavo Rojas Pinilla ao poder, surge a promessa de pacificação do país, com a garantia de anistia, oportunamente aproveitada pelos líderes liberais de então. No entanto, grande parte dos liberais não aceitaram participar desse movimento, mesmo sem vislumbrar a manutenção da luta por meio das armas. Esse grupo se organiza na região de Marquetália e inicia um processo de desenvolvimento econômico agrário extremamente bem sucedido, com a participação, ainda que minoritária, também dos comunistas.

    Em meados da década de 1960, essa experiência da região de Marquetália, que atingia um grau extremamente elevado de desenvolvimento agrário e econômico, em um modelo completamente diverso da tradicional propriedade, torna-se uma ameaça aos interesses dos conservadores e dos líderes liberais, que respondiam diretamente a grandes grupos financeiros, além dos interesses privados estadunidenses na região, garantidos por seu governo.

    Nessa situação, volta a intensificar-se a violência paramilitar e militar contra os camponeses da região, só que agora já completamente abandonados pelos liberais, que deixaram os camponeses a eles ligados completamente abandonados.

    Na rabeira da intensificação da violência, viu-se também a volta da política sistemática de “reforma agrária às avessas”, com o êxodo forçado de milhares de camponeses da região. Só que agora, como resultado da experiência de resistência anterior, os ataques aos camponeses deixam de ser tão fáceis.

    Diante do completo abandono dos liberais à causa, são os comunistas que tomam a frente da resistência, tendo Marulanda, antigo líder camponês liberal, agora já nas fileiras do Partido Comunista, organizando, junto com outros 47 líderes camponeses, a resistência à violência estatal e paraestatal.

    Tendo a resistência organizada, torna-se imperativo para os interesses dos conservadores, dos liberais e dos estadunidenses, o completo extermínio da mesma, no que em 1964 organizam uma missão de 16 mil soldados, bombardeios e todo tipo de forças paramilitares, com o único objetivo de exterminar os 48 líderes camponeses da região.

    Nesse episódio de 1964, a resistência, ainda que sem uma vitória territorial clara, obtém uma significativa vitória ao frustrar, por absoluto, o objetivo do ataque, que era o extermínio da resistência. E o fizeram, dentre outras coisas, pelo levante em armas, na forma de guerrilha rural, que acabou por iniciar a vida e a história das FARC-EP, movimento que acabou por se espalhar por todo o território colombiano, sob sustentação dos comunistas, com a adesão de camponeses e trabalhadores de todo o país, vítimas do terrorismo de Estado e dos paramilitares, tendo adotado sua forma de organização e seu nome após a reunião de todas as frentes guerrilheiras, também na região de Marquetália.

    Tal origem das FARC, sua forma de organização, de nascimento, aliada à sua composição popular, de pronto impedem qualquer possibilidade de entendê-la como organização essencialmente militar, pois é popular em sua raiz, em seu nascedouro, em sua formação real.

    (continua…)

  7. È com muita satisfação encontrar um espaço sério de discussão de este assunto da maior relevância para America Latina e o Caribe.

    O texto de Jefferson Andrade é fantástico.

    Construir um revolucionário como Raul Reyes é um trabalho de muitos e de muito tempo, que perdas.
    O avanço da decisão qual é o órgão que deve legislar sobre o assunto, o Grupo do Rio, a OEA, ONU, ou uma organização própria de estes países?
    O fato de que quase todos os organismos internacionais e nacionais condenaram a ingerência da Colômbia junto com EEUU em Equador, deve servir para fortalecer os laços de amizade, solidariedade, e o respeito a soberania e auto-determinação entre nossos povos irmãos, e que não se repita semelhante varvaridade.
    O melhor que temos por fazer é criticar menos como os povos se organizam e irmos à luta, para criarmos sociedades que resolvam os problemas que nos afligem.

    A continuação comunicado da Corrente Comunista Luis Carlos Prestes:
    CARTA DA CCLCP AOS COMUNISTAS E REVOLUCIONÁRIOS
    DO BRASIL E DO MUNDO
    Os últimos acontecimentos na América Latina nos obrigam refletir profundamente sobre os objetivos do imperialismo e sobre a necessária unidade dos povos em busca da liberdade e da emancipação humana.
    O massacre realizado pelo governo colombiano, conjuntamente com a CIA, a 20 insurgentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo, entre eles o camarada herói Raúl Reyes, violando o território equatoriano, mostra concretamente os interesses do imperialismo. Este, ao qual o governo do narcopresidente Álvaro Uribe serve há anos, através do Plano Colômbia, não somente não deseja a paz, como necessita da guerra no mundo todo, inclusive na América Latina.
    A crise que hoje vive a economia dos Estados Unidos é expressão da crise estrutural do domínio do capital. Ela constitui um momento em que o sistema do capital em seu conjunto se aproxima de seus limites históricos e sistêmicos, ao tornar a produção destrutiva em elemento determinante do processo de acumulação e reprodução do capital, e subordinar à sua lógica a produção genuína. Isto quer dizer que a violência (o aumento da criminalidade comum, as guerras, o terrorismo de Estado, etc.), o desemprego, o fim dos direitos dos trabalhadores, a fome, a miséria e o desespero das grandes massas, inclusive nos países centrais do sistema, não somente não são prejudiciais ao sistema, como constituem condições funcionais à continuidade do processo auto-expansivo e auto-reprodutivo. Assim, a palavra de ordem “socialismo ou barbárie” é mais atual do que nunca e não há exagero em dizer que a continuidade do capital hoje é uma ameaça à continuidade da vida da humanidade.
    Na América Latina têm surgido grandes esforços de movimentos sociais, organizações políticas e governos para propor alternativas ao domínio do imperialismo, que a colocam em uma nova situação de enfrentamento do monstro do Norte. Estes esforços se alcançam a vitória, abre-se enormes potencialidades para a conquista da “segunda e definitiva independência”, e mudam a correlação de forças do sistema mundial de poder, pois a libertação da América Latina significaria o enfraquecimento da potência bélica mais poderosa do mundo: os Estados Unidos. Por isto fortalecer e levar ao fim a revolução bolivariana (que significa levá-la ao socialismo), compreendida não somente como venezuelana, mas latino-americana, é estratégico para a revitalização do comunismo como alternativa verdadeiramente humana ao domínio destrutivo e cego do capital. Neste sentido, o papel que desempenham Cuba e Venezuela são fundamentais, pois servem de exemplos concretos de que a luta pelo socialismo não é abstrata, mas viável e necessária, e que não faltará solidariedade internacional a todos os povos que se levantam pela liberdade, seja Bolívia, Equador, Nicarágua, que hoje não apenas resistem ao imperialismo, como também disputam mais concretamente o poder a partir da organização popular, a partir de espaços permitidos pela existência de governos progressistas; seja Colômbia que resiste com a luta armada e social há mais de meio século a governos pró-imperialistas, como de Álvaro Uribe, que massacram a um dos povos mais reprimidos do mundo e tornam aquele território uma verdadeira base militar a serviço dos Estados Unidos; seja a todos os povos que certamente não estão adormecidos, mas que necessitam avançar na unidade e organização popular na perspectiva da revolução socialista.
    Contudo, é justamente porque a América Latina apresenta esta potencialidade que pode se tornar terra de invasão militar direta. A fase imperialista que vive o capitalismo não pode permitir a existência de povos não submissos, que não entregam suas riquezas, tampouco suas bandeiras pela liberdade. O imperialismo necessita nossos petróleos, nossas águas, nossas terras e nossos/as trabalhadores/as, portando, dificuldades para o roubo destes recursos são motivos suficientes para uma guerra, além da necessidade da produção e consumo de armas, de destruição para a reconstrução, como condições da expansão do capital, e a ameaça das fortes lutas pela “segunda e definitiva independência”. Infelizmente esta possibilidade aumenta na medida que nossas lutas avancem, algo pelo qual seguiremos lutando “até a vitória, sempre”.
    Este contexto nos coloca grandes desafios. Si é correto que é o avanço da nossa luta que provoca a intervenção imperialista, é certo também que podemos avançar a ponto de impor uma derrota ao mesmo imperialismo. Trata-se, neste sentido, de fazer um chamado, em primeiro lugar, à unidade anti-imperialista dos povos, independente de suas divergências pontuais. Nesta unidade é necessária a luta antifascista, pois o fascismo é uma necessidade do sistema e tem provocado ao longo de nossa historia o aborto de inúmeras lutas emancipatórias. Nessa unidade é fundamental defender a beligerância não apenas das FARC-EP e do ELN, mas também de todos os povos que hoje se encontram em verdadeiras guerras contra seus opressores que lhes explora e lhes massacra. Nesta unidade é imprescindível lutar pela paz, compreendendo que ela somente será possível com a destruição do capitalismo – baseado na exploração do homem pelo homem -, e na construção de uma sociedade sem classes e sem exploração.
    Porém, para que nossa luta avance e alcancemos a vitória também é necessário lutarmos duramente em nossos países. A maior solidariedade que podemos dar aos nossos irmãos é lutar pela revolução em nosso país. Neste sentido, é necessário que não nos equivoquemos em relação à estratégia. Nossas burguesias nativas são pró-imperialistas, portanto, são inimigas estratégicas e isto se exemplifica muito bem no Brasil, onde a burguesia, a través de seus meios, tem trabalhado sistematicamente (com muitas mentiras) a idéia de uma guerra entre Brasil e Venezuela com o objetivo de naturalizar na mente do povo brasileiro a situação de envio de tropas militares contra a luta de outros povos. Assim, a tática está na unidade dos/as trabalhadores/as e dos/as oprimidos/as em torno de um programa que supere a fome, a miséria, a exploração, unindo-se num bloco de forças que lutará contra os latifúndios, os monopólios e o imperialismo, ou seja, contra a estrutura capitalista e por uma sociedade socialista.

    Brasil, março de 2008
    Comissão Política Nacional

    Secretaria de Relações Internacionais
    Corrente Comunista Luiz Carlos Prestes
    Brasil

  8. A existência das FARCs e dos grupos de auto-defesa de Colômbia remontam a um período pouco posterior ao ‘Bogotazo’, manifestação popular ocorrida após matarem um candidato que tinha grande apoio popular e das esquerdas. Depois disso, os grupos insurgentes chegaram a ocupar grande parte do território do país (estima-se que essa ocupação tenha chegado a 1/3 do território colombiano), dominando estas áreas, a despeito dos sucessivos governos que tentaram combatê-los. Após repetidas tréguas, quebradas quase sempre de modo unilateral pelos governantes, chegou-se à decisão de tentar resolver o problema pela via militar, com apoio dos E.Unidos, sob pretexto de combate ao tráfico de drogas. São coisas ‘quilometricamente’ distintas: FARCs, narcotraficantes, paramilitares e governo – embora o governo de Uribe e a grande mídia internacional tentem identificar FARCs e narcotraficantes como sendo a mesma coisa, ou coisas associadas. A Colômbia abre mão de sua soberania e direito de julgar seus cidadãos, baixo acordo com os E.Unidos, no bojo do ‘Plan Colombia’. Muito ruim para todo o continente …

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