Brasil começa a debater possível contágio

Ministério da Fazenda e Banco Central têm visões e receitas opostas. A boa notícia: ao contrário do que ocorreu em crises anteriores, a elevação dos juros não é a única alternativa em debate

As ilusões de que o Brasil está imune aos desdobramentos de uma crise financeira global começaram a se dissipar claramente esta semana. Alguns fatos indicam que a ficha está caindo.

>> O ministério da Fazenda adotou, na quarta-feira (12/3), medidas que procuram reduzir a vulnerabilidade externa do país, por meio de mudanças nas regras para a entrada e saída de moedas estrangeiras. As decisões são tímidas e mesmo contraditórias. Sua importância está no fato de indicarem que o governo considera, entre as alternativas para a crise, a hipótese de intervenção pública nos mercados. Como se vê em outra postagem, nos EUA (epicentro da crise), ações não-ortodoxas do Estado já são consideradas por alguns analistas como essenciais para enfrentar a onda de falências.

>> Um dia depois, o Banco Central (BC) divulgou a ata da última reunião de seu Comitê de Política Monetária (Copom). O documento revela que o banco também está preocupado com as turbulências externas, mas pensa em resolvê-las com ações de sentido contrário às do ministério da Fazenda. Examina a hipótese de elevar ainda mais os juros reais — que já ocupam, há vários anos, a posição de mais altos do mundo (veja tabelas sobre juros e inflação de dezenas de países na revista The Economist). Ou seja: ao invés de regular os mercados, pretende seduzir os investidores oferecendo-lhes rendimentos ainda maiores. É a mesma receita adotada nas crises cambiais de 1995, 1998-99 e 2002, sob o governo FHC.

>> As medidas adotadas na quarta foram precedidas de um debate no Palácio do Planalto. No domingo (9/3), Lula ouviu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles e os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Netto. Belluzzo é conhecido por sua visão crítica sobre os mercados financeiros internacionais. Sustenta há anos a necessidade de estabelecer controles importantes sobre os mercados de capitais. Delfim também se incomoda com a posição subalterna do Brasil na hierarquia das finanças mundiais. Mas liderou em 2005 — junto com o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci — um movimento que procurava enfrentar o problema reduzindo brutalmente as despesas não-financeiras da União. Ao longo dos anos, isso permitiria, segundo ele, resgatar parte importante da dívida, reduzindo a dependência e o pagamento de juros ao capital financeiro.

Como a crise nos EUA e a possibilidade de contágio tendem a se agravar, tudo indica que este debate chegará rapidamente à sociedade. Suas nuances são muito complexas e serão acompanhadas pelo blog. Mas a questão essencial é a que apareceu esta semana. Diante de solavancos que expõem a enorme fragilidade da arquitetura financeira global, a sociedade brasileira tem o direito de propor uma nova relação entre o país e os mercados? Ou a única saída é mais do mesmo, como sugere o Banco Central?

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