Belluzzo debate as oportunidades abertas pela crise

By Antonio Martins

quinta-feira, 20 março 2008

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Nos EUA, eleições podem colocar em xeque as decisões que socorrem os bancos — e abandonam milhões de famílias inadimplentes. No Brasil, controle dos fluxos de capital volta à agenda. E já existe clima para falar em nova arquitetura financeira mundial

Diante de uma crise gravíssima no sistema financeiro internacional, que atitude deveriam adotar aqueles que sempre apontamos suas injustiças e desequilíbrios? Esperar que as turbulências se acalmem, para preservar os surtos de crescimento vividos por economias “emergentes”, como a do Brasil? Torcer, ao contrário, por grande colapso — no qual o capitalismo desabaria sobre os pilares de desigualdade e violência que o sustentam?

Na terça-feira (18/3) à noite, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo concedeu entrevista, da qual sobressai uma alternativa a estas duas posturas — aparentemente opostas entre si, mas idênticas no convite à passividade. Ouvido por Le Monde Diplomatique e pelo blog Futepoca, ele argumentou que: a) tanto nos EUA quanto no Brasil, as soluções apresentadas pela cartilha neoliberal são incapazes de deter a crise; b) certos fatores (como as eleições norte-americanas, o enfraquecimento do dólar e, no caso brasileiro, a existência de um governo que não ouve apenas as receitas ortodoxas) criam possibilidade de saídas não-tradicionais.

Nas últimas duas décadas, a sociedade civil multiplicou, em todo o mundo, sua capacidade de compreender as finanças globais. Elas estão entre os temas mais tratados, por exemplo, nos Fóruns Sociais Mundiais — onde campanhas relacionadas à dívida pública, justiça tributária (inclusive por meio de impostos internacionais) ou paraísos fiscais têm enorme espaço. O conhecimento acumulado e as relações construídas serão suficientes para aproveitar a janela de oportunidade que se abriu e intervir sobre a crise? Uma das condições para isso é conhecer a natureza dos problemas e os distintos meios de enfrentá-los. A entrevista de Belluzzo — um conhecedor profundo dos mercados financeiros e de sua lógica — estará no ar em breve. Veja abaixo alguns dos pontos de vista sustentados por ele, segundo o registro do blog:

> A gravidade da crise e as medidas do banco central dos EUA (o FED):

A concessão de empréstimos maciços aos bancos (“injeções de liquidez“) ou a simples redução das taxas de juros não enfrentam o centro do problema. O endividamento das famílias norte-americanas já é superior a 100% do PIB (era de40% do PIB, na crise de 1929). Essa imensa pirâmide de créditos, que se apóiam uns nos outros, está seriamente abalada por uma onda de inadimplência. Milhões de famílias terão, em breve, dívidas superiores a seu patrimônio. A redução dos juros não é eficaz porque, em tal conjuntura, os bancos resistem a emprestar. Nos últimos dias, a desconfiança reduziu inclusive os empréstimos entre as próprias instituições financeiras.

> A cegueira dos economistas e o papel das eleições:

O FED precisará absorver, em alguma medida, os títulos financeiros que estão “podres”, porque ancorados em empréstimos que não serão pagos. Isso começou a ser feito. Muito mais importantes, porém, são ações capazes de recuperar as famílias endividadas. Elas foram atraídas, em inúmeros casos, por contratos ilusórios, nos quais as prestações são baixas apenas nos dois primeiros anos. Como a economia entrou em recessão, terão enormes dificuldades para cumprir os compromissos. Para apoiá-las, são necessárias medidas de reditribuição de renda — um tabu para os neoliberais, tanto nos EUA quanto no Brasil. O economistas ortodoxos consideram “indispensável” socorrer os bancos, mas escandalizam-se com programas como o bolsa-família.

As eleições presidenciais dos EUA são o fato novo que pode mudar o jogo. O discurso de Barack Obama e Hillary Clinton, a princípio muito “morno” em macroeconomia, está começando a ser influenciado pela crise. Ela tende a ocupar o centro dos debates. Nos últimos dias, a crítica às decisões do FED está se espalhando pelos blogs. Será muito difícil defender, perante o eleitorado, a manutenção das políticas atuais.

> A resistência do Brasil e seus limites:

Vivemos uma situação anômala, no bom sentido. Pela primeira vez, turbulências nos mercados internacionais de crédito não estão gerando uma crise cambial interna. Para isso, contribuem tanto as reservas de mais de US$ 100 bilhões quanto a noção, entre os investidores, de que a economia brasileira não é atraente apenas pelos juros altos que oferece.

Mas há duas vulnerabilidades. A primeira são as próprias dimensões que as turbulências internacionais podem assumir. Ninguém é capaz de prevê-las. Um fator-chave é a relação entre Estados Unidos e China. Uma redução muito forte nas importações norte-americanas seria sentida na Ásia e poderia provocar queda abrupta nos preços das matérias-primas (commodities), que são muito importantes na pauta das exportações brasileiras. É bom lembrar que o contágio dos preços das matérias-primas foi um dos fatores que tornou drásticas as conseqüências da crise de 1929.

A segunda fragilidade é a própria deterioração de nosso balanço externo — tanto o comercial quanto o financeiro (“balanço de pagamentos”). Para ela, contribui dramaticamente a política de juros do Banco Central. A entrada de capitais externos, em busca de rendimentos financeiros, valoriza o real, encarece os produtos brasileiros, estimula importações desnecessárias. No plano financeiro, contribui a remessa acentuada de lucros pelas multinacionais, a suas matrizes. Estamos pagando o preço da mudança importante que houve na composição da propriedade das empresas brasileiras, nas últimas décadas. Numa situação de crise internacional, a deterioração do balanço externo é um péssimo sinal para os investidores e pode por a perder as conquistas dos últimos anos.

> O possível controle dos movimentos de capital:

Pela primeira vez, o aumento de juros não é a única alternativa considerada pelo governo brasileiro, diante da crise. Na terça-feira passada (11/3), o ministério da Fazenda impôs, sobre a entrada de capitais externos, um imposto (IOF) de 1,5%. Escrevi a respeito, em Carta Capital, um artigo intitulado “Sua mãe subiu no telhado“. Argumento que o imposto ainda é “muito camarada”, mas que abriu-se um precedente. Nada impede que, diante do agravamento da crise, o governo estabeleça outras medidas de controle de capitais.

> A crise do dólar e a possibilidade de uma nova ordem financeira:

O sistema financeiro internacional não poderá ser reconstruído tal qual é hoje. A causa principal é o enfraquecimento do poder do dólar, moeda internacional de referência, e do papel político dos Estados Unidos. Juntos, os países “emergentes” já acumulam reservas de US$ 4 trilhões, algo inédito.

O interessante é que alternativas ao dólar já foram cogitadas antes, em fóruns internacionais. Em 1979, cobri, pela Gazeta Mercantil, um encontro em Dubrovnik (antiga Iugoslávia), em que autoridades monetárias de todo o mundo debateram o que fazer, diante da perda de peso relativo da economia norte-americana. Falava-se numa conta de substituição: o dólar daria lugar, paulatinamente, a uma cesta de moedas, e esta passaria a ser a referência das transações internacionais. A situação me parece muito mais propícia hoje a um padrão plurimonetário.

Esta hipótese, porém, precisa ser construída com habilidade. O Brasil pode, em princípio, ter papel importante. Haverá resistências. Em 1979, os EUA retiraram-se de Dubrovnik, contrariados, antes do final da reunião. Paul Volcker, o então presidente do FED tinha outros planos. Estávamos no aeroporto, embarcando de volta, quando lemos, pelos jornais, que ele, já em Washington, havia elevado a taxa de juros norte-americana, numa tacada, de 8% para 12%. Ela iria a 16% mais tarde. Nos anos seguintes, por meio de um conjunto de decisões políticas, os Estados Unidos construíriam, quase unilateralmente, a ordem financeira que temos hoje.

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4 Responses to “Belluzzo debate as oportunidades abertas pela crise”

  1. Antonio,

    É preciso aprender com a psiquiatria: se não estamos nos sentido bem e queremos mudar o primeiro passo é conhecer e reconhecer a nossa doença.

    A aparente fraqueza do dólar é justamente a maior demonstração da sua força, pois ele está impondo aos demais países o pagamento da conta do ajuste do déficit comercial e das irresponsáveis aventuras financeiras, dos mercados norte-americanos.

    A proximidade das eleições norte-americanas tem papel preponderante na decisão de “arrumar” a casa, que visa não só fazer a faxina, mas também aproveitar os últimos momentos para colocar uma pedra sobre o ciclo da farra.

    Ou seja, só está sendo aplicado o “freio de arrumação” que além de aglomerar na marra os passageiros mostra quem está no comando.

    É como nas guerras “cirúrgicas”, no fim apresentam a conta para todos. E todos, mansamente, porque não têm alternativas, pagam!

    Sempre soubemos que o neoliberalismo com a sua eficácia dos mercados era pirita, pois eles querem o Estado para arrecadar impostos, que devem ficar disponíveis para proteger seus ganhos.

    Logo eles irão inventar outra tese para substituir a que está naufragando, mas que gerou enormes ganhos para eles e a maior concentração de renda já ocorrida no mundo, inclusive nos EUA. Eles são pragmáticos; nós é que entramos na fria de ficar discutindo as teses fajutas deles.

    No momento, estamos presenciando a mais pura demonstração da supremacia dos irmãos do norte. Alguns exemplos:
    1. vendem seixo a preço de brilhante (papéis do subprime);
    2. obrigam os concorrentes a injetar recursos em suas empresas atoladas em enormes prejuízos;
    3. provocam uma colossal transferência de renda das demais economias para a sua, via juros, dividendos e lucros;
    4. sustentam falsos oráculos da economia mundial, como as empresas de rating com suas falsas avaliações;
    5. desdenham o apelo dos impotentes aliados que imploram um mínimo de moderação no seu ajuste;
    6. forçam a ampliação dos mercados internos dos parceiros para que estes absorvam o excedente da sua parada estratégica, sem nenhuma preocupação com a inflação daí decorrente;
    7. equilibram a sua balança comercial mediante o aumento das exportações de suas empresas sem competitividade e sem mercado interno; etc.etc.

    Inadvertidamente alguns vendem o sonho da breve quebra da hegemonia econômica dos EUA e a conseqüente deterioração do padrão-dólar. Puro ilusionismo; hoje ninguém tem força para tanto, pois o Yene e o Euro já ajoelharam e o Yuan está começando a flexionar os joelhos. O nosso sonho de testemunhar a queda do império está longe de acontecer.

    Dois exemplos de sonhos que também, para alguns, “indicavam” a queda do império:
    1) FATO: o desmonte da União Soviética e o fim da bipolaridade mundial, SONHO: iniciar-se-ia a formação de vários blocos mundiais (América, Europa, Árabes, Oriente) iniciando a era da multipolaridade mundial;
    2) FATO: ataque às torres gêmeas, SONHO: o império reconheceria a sua fragilidade e passaria a ser mais solidário com o resto do mundo.

    Esta hegemonia outorga ao Dólar as categorias de parâmetro e de reserva internacional que são definidoras da economia dominante. Portanto pensar que os EUA, com sua exuberante hegemonia militar, permitirão ameaças a sua moeda não é sonho, é alucinação.

    Se este sonho for comprado por alguns é certo que logo os veremos chorando como aconteceu nas crises cambiais do final das décadas de 70 (Resolução 63) e de 90 (leasing de automóveis). Creio que, nas atuais circunstâncias, quem tomar empréstimos de longo prazo em dólares entrará numa canoa furada.

    Assim como no filme famoso, na vida real também o dólar furado salva o mocinho. A única diferença é de que no filme a moeda foi furada pelo bandido e na vida real ela foi furada pelo dedo do proprietário do patacão.

  2. gostei do comentário do João Pedro. Ele não teoriza, ele vai logo ao ponto.
    Só mesmo so teóricos formados pelas universidades públicas brasileiras (sem pagar um centavo), sem compromisso com a realidade, é que sonham languidamente com o fim do império. Só eles mesmo, sonhadores inconsequentes.
    O poder está lá, nas centenas de bases militares espalhadas pelo mundo, com centenas de navios de guerra, uma força maior que a de todo o resto do mundo somada. Com toda a tecnologia que os outros apenas sonham.
    Nos laboratórios deles, está a tecnologia do futuro. Muito à frente dos outros países. E o modo de vida americano ainda é um sonho para o restro do mundo; e ainda há a música, cinema, cultura, etc.
    E aí vem um sonhador e diz: olha, é o fim do império americano. e eu digo: Ó, como é bom sonhar!!!

  3. Joao e Jose voces so esqueceram de algumas coisas , hoje tem a China com 1,4 trilhao de reservas cambiais , ela também tem armas nucleares , mas nao precisa disparar nem tiro de festim , é so parar de compra títulos do tesouro americano para os Eua entrarem em falencia ja quetem um deficte monstruoso de 710 bilhoes de dolares por ano e essas forças armadas e bases pelo mundo que voces se referem sao responsaveis por mais de 600 bilhoes ano de orçamento em 2008 os Eua arrecadaram 2,8 trilhao e vao gastar 3,2 trilhao com ajuda de quem? Da China , e se ela mudar de dolar para euro o que acontece?

  4. A é me desculpe faltaram só India , Brasil , Russia e mais a China , os Brics que sao responsaveis hoje por metade do crescimento mundial , tem as maiores reservas cambiais do mundo cerca de 4 trilhoes de dolares , e se mudarem para o euro o que ocorre com os Eua , tem as maiores reservas de petroleo e gas do mundo Russia e Brasil , os Eua estao exauridos e sao dependentes dos outros , a industria americana nao cosegue vender nem carro nos Eua , que so querem carros japoneses , a India é amaior produtora e exportadora de softweres do mundo cade cade a industria americana , enquanto a industria da Alemanha bate recordes de produtividade e exportaçoes mais de 1,450 trilhao em 2007 a industria americana esta se tranfirindo para aChina , India , Mexico e fechando suas fabricas em territorio americano , cade os Eua?Nao vi sumiu.Fala serio ninguem liga para os Eua atualmente , apenas os atrasados , so se fala nos BRICS Brasil , Russia , India , China. Se atualizem.

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