Somos um e múltiplos

Repentistas, poetas, músicos, personagens, mestres. No II Encontro Sul-Americano das Culturas Populares – Revelando experiências, Políticas e Manifestações – se aprende que ser brincante é ser brincante em qualquer parte e que o resgate das culturas populares é uma busca comum

por Carolina Gutierrez

Chimbángueles, maracatus, tamonangui, pífanos ou flautas. A poesia popular é a mesma. Em português ou castelhano, o que muda são os sotaques – mais arrastado, caipira, arretado. Na Venezuela, o cavaquinho recebe o nome de “cuatro”. O forró se transforma num forró-maracas. A peculiaridade não difere – aproxima.

Foi esse intercâmbio de saberes e vivências das culturas populares da América Latina que se pôde ver no primeiro dia do II Encontro Sul-Americano das Culturas Populares – Revelando experiências, Políticas e Manifestações. Organizado pelo Ministério da Cultura do Brasil e Venezuela, o evento que começa hoje, 26, e vai até o dia 29 de novembro, acontece em Caracas, na Venezuela. Conta com a presença cultural de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Paraguai, Venezuela, Cuba, Honduras e Nicarágua. Serão quatro dias de debates, painéis teóricos, apresentações e festejos. A idéia é coletar o máximo de contribuições, depoimentos, propostas e anseios dos fazedores de cultura popular, e construir a partir disso uma carta dos mestres, como um manifesto. Um documento político que será entregue aos Ministros de Cultura dos países participantes em uma reunião no Rio de Janeiro, no próximo dia 5 de dezembro.

A pauta do encontro é o reencontro com diversidade e identidade cultural e as políticas públicas aplicadas a elas. Além disso, uma pergunta: Como promover a integração da América do Sul, por meio das culturas populares?

Os protagonistas desse evento não são os acadêmicos, administradores públicos ou pesquisadores. São os mestres, ou melhor, os representantes-líderes das diversas manifestações populares.

“Aqui, esperamos adquirir o máximo conhecimento sobre as demais culturas. É a primeira vez que se faz um evento com tal grandiosidade e possibilidade de troca. Isso é muito bom, porque poderemos vivenciar a cultura de outras regiões e países. Unir-nos em uma única família”, afirmou Heli Saúl Prieto, da manifestação de San Benito da região de Maracaibo, na Venezuela.

Já Mirtha Colina, delegada do Centro de Diversidad y Cultura do Estado de Zulia, na Venezuela, explicou que o grande objetivo é levar a discussão ao poder público. “Estamos reconhecendo, reconstruindo e reencontrando o que antes, nos anos 90, era totalmente esquecido pelo governo e pela população – a identidade. As culturas populares têm uma importância transcendental e histórica. Ela é a sabedoria do cotidiano. Aqui é uma oportunidade que mostra como nossa cultura pode emergir e tornar-se visível”.

A abertura do II Encontro contou com a participação de vários atores: o Secretário de Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil, Américo Córdula; o presidente do Centro de Diversidad Cultural, Benito Irady; o vice-ministro do Poder Popular para a Cultura da República Bolivariana de Venezuela, Juan Carlos Lozada; E claro! Os atores principais – os mestres e mestras.

Nas palavras de boas vindas, todos enfatizaram a necessidade de resgatar as tradições profundas de cada povo. A herança cultural tem que ser transmitida. O conhecimento popular deve ser defendido. E o Estado, um imprescindível apoiador e fomentador.

Para Secretário de Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil, Américo Córdula, o encontro passa a construir uma integração cultural da América do Sul, onde a cultura se afirme em todos os espaços. “Temos de promover a diversidade cultural e, inclusive, lingüística. A língua não pode mais nos afastar. Promover uma integração por meio da cultura”.
O vice-ministro do Poder Popular para a Cultura da Venezuela Juan Carlos Lozada completou: “Se há alguma possibilidade de desenvolvimento e mudança na sociedade, está nas culturas populares”.

Após as falas o palco do Teatro Teresa Carreña foi tomado pela Orquestra de Instrumentos Latinoamericanos (ODILA) da Venezuela. Os simpáticos e sorridentes músicos representaram, através da música, ritmos típicos dos países participantes. Daí nasceu um forró com maracás. Um tanto desajeitado, talvez por não ter a nordestinidade “en el sangre”. Um intercâmbio musical que deu certo. A prática da antropofagia cultural oswaldiana.

Logo depois, os tambores dos Chimbángueles de San Benito de Bobures começaram a soar. Incrivelmente brasileiro e africano, mas venezuelano. A manifestação se parece com uma mistura do maracatu rural com cavalo-marinho, do Brasil. Os batuques, algo que se assemelha ao jongo brasileiro.

Talvez, a integração ou o intercâmbio cultural entre as peculiares manifestações populares já ocorra de forma natural, porém não se conhecem, mesmo que próximas.

Já na parte da tarde, aconteceu o primeiro fórum teórico, onde representantes de cada país contaram suas experiências no que se refere às culturas populares. Os verbos-chaves apontados podem ser resumidos em: protagonizar, conservar, proteger, resgatar, conhecer, reconhecer, dialogar, defender, reencontrar, diversificar e resistir.

“A cultura implica a construção de uma sociedade. É um debate permanente sobre o país que se quer construir”, concluiu Antonia Portaneri, coordenadora da Universidad de Proyectos y Programas Especiales de La Secretaría de Cultura da Argentina.

O II Econtro II Encontro Sul-Americano das Culturas Populares – Revelando experiências, Políticas e Manifestações dá sequëncia aos I Seminário de Políticas Públicas para Culturas Populares (2005, Brasil) e ao I Encontro Sul-Americano das Culturas Populares (2006, Brasil).

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One Response to “Somos um e múltiplos”

  1. Procura material sobre a frança moderna (atual) fora dos estereótipos e paralelos entre brasileiros e franceses.

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