Momo nos acuda: repressão a um Ponto de Cultura em Olinda

Parecia operação de guerra. Instrumentos foram arrancados com violência das mãos das crianças. “A nossa resistência frente à intolerância da polícia, da igreja, da cultura de palcos incomoda”, diz Beth de Oxum

Por Carol Gutierrez

Já nas primeiras batucadas do carnaval, os Pontos de Cultura pedem licença a Momo para desviar a atenção das purpurinas, confetes e serpentinas e atentar para um caso que diz respeito a todos os reis, deuses, orixás e mestres da cultura.

Pela segunda vez, em três meses, o Ponto de Cultura Coco de Umbigada, localizado em Olinda, sofreu ataque da Polícia Militar (PM) de Pernambuco. No dia 13/02, a PM chegou chegando e invadiu a Sambada realizada pelo grupo, todo o primeiro sábado do mês. Segundo Beth de Oxum, coordenadora do Ponto de Cultura Coco de Umbigada e do Ponto de Cultura Escola de Ensinamento de Mãe Preta, mais parecia uma operação de guerra. Ela contou que havia mais de 40 policiais, dentre civis e militares e em torno de 10 viaturas.

Os oficiais chegaram às 21h30 alegando que a Sambada estaria infringindo a lei do sono (correspondente à lei do Psiu, em São Paulo). Beth relatou que os instrumentos, inclusive uma zabumba centenária, foram arrancados violentamente das mãos das crianças (Coco de Umbigadinha) e apreendidos. Logo após, Beth foi intimada a ir à delegacia. Não foi! Disse que só iria se toda a comunidade fosse com ela.

“Tudo isso foi a mando do major Marcos Pereira e de seu irmão capitão Daniel Pereira, moradores da nossa comunidade do Guadalupe. A mãe é evangélica e eles não aceitam, não toleram e nem respeitam o nosso trabalho e a religiosidade e matriz afro”, disse.

Beth contou, ainda, que tentou argumentar que o Ponto de Cultura possuía autorização para a realização da Sambada e que tinha o apoio da Prefeitura de Olinda, do Ministério da Cultura e do governo do Estado (Fundarpe). A resposta veio rápida como um tiro de revólver. “O Capitão Daniel Pereira disse que era mentira que tínhamos esse apoio, que forjamos um banner, pois o Ministério da Cultura não apoiaria projeto “de um povo com estes cabelos.” Beth,o marido Quinho e a maioria das pessoas da comunidade e integrantes do Ponto são Rastas. Mal imagina capitão Daniel que o ex-ministro da cultura, Gilberto Gil, também tinha os mesmos cabelos.

Para encurtar a história, foi necessário um telefonema à Secretária de Cultura de Olinda Márcia Souto, que ligou para o prefeito Renildo Calheiros, que comunicou ao Secretário de Controle Urbano Sr. João Luiz. Um telefone sem fio que acabou com a presença do Secretário João Luiz na delegacia. Curiosamente os instrumentos e aparelhos de som foram devolvidos ao Ponto.

Beth relatou que a repressão aumentou logo após a mudança do Ponto de Cultura para uma rua mais central. Antes o grupo reunia-se e realizava a Sambada num Beco. Com o crescimento do Ponto, alugaram uma casa e a fizeram de sede. A casa localiza-se na rua dos oficiais major Marcos Pereira e de seu irmão capitão Daniel Pereira – Rua Guadalupe. Desde então as pressões e ataques ao Ponto intensificaram-se.

O coronelismo parece continuar e dessa vez atinge a cultura. “A nossa ação gera empoderamento e pertencimento. Lutar por cidadania, transformação social, atender quem nunca foi atendido – como os quilombolas, indígenas e, no nosso caso, os terreiros – incomoda. A nossa resistência frente a intolerância da polícia, da igreja, da cultura de palcos incomoda. Enfim, o resultado do nosso protagonismo incomoda o outro segmento da sociedade que sempre nos estereotipou!”

Mas e agora como é que fica Zé? Marta Figueiredo , diretora de gestão do Funcultura da Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco) afirmou que a Fundação acionou o gabinete do governador para apurar os fatos e tomar providências. “Estamos esperando a resposta efetiva e orientação do gabinete do governador. Enquanto isso distribuímos o email com o relato de Beth para a rede de Pontos de Cultura”.

Já Tarciana Portella, chefe representante da regional Nordeste do MinC, disse que uma reunião para discutir o ocorrido e as medidas a serem tomadas está em processo de agendamento (prevista para o pós-carnaval). Segundo Tarciana, estarão presentes o Ponto de Cultura Coco de Umbigada, o secretário executivo de Justiça e Direitos Humanos Rodrigo Pellegrino e o Comandante Geral da Polícia Militar de Pernambuco José Lopes. O comandante Lopes ainda não confirmou .

“O Ponto, o Coco de Umbigada e a Sambada cresceram muito. O que ocorre é um conflito de vizinhos daquela comunidade, onde um tem poder exacerbado, inclusive com o poder de fogo. Houve um abuso de poder, onde entrou na roda tudo o que é preconceito – racial, religioso, de classe – o incômodo da situação. Evento cresceu demais e vizinhos responderam de forma abusiva”, analisou Tarciana.

Para ela, o ideal seria uma posição negociada entre o poder público, para garantir os direitos da Sambada (inclusive de maior infraestrutura e espaço) e também o conforto da vizinhança (devido ao barulho e à quantidade de gente presente na festa).

Mas como fazer para que casos como esse, repetidos no sul do país, em ataques aos quilombolas, e no Rio de Janeiro, em ataque ao Jongo da Serrinha não se tornem um grão de confete em meio ao carnaval da polícia militar?

Saiba mais:

Sobre a violência no coco de Umbigada em Dezembro de 2008, clique aqui.

Sobre a violência no coco de Umbigada em Janeiro no ultimo dia sábado, clique aqui.

Blog do Coco de Umbigada, clique aqui.

Ponte de cultura Coco de Umbigada no Mapas da Rede, clique aqui.

Tags: abuso, autoridade, coco, cultura, de, manifestações, pontos, populares, umbigada

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