Audiovisual pernambucano: o que está por vir na nova safra

Seleção de projetos audiovisuais traz à luz as estéticas e temáticas da produção pernambucana para os próximos dois anos

Tive a chance de conhecer, nestes últimos dois meses, 159 propostas audiovisuais de cidadãos e entidades culturais inscritas no II Edital de Fomento ao Audiovisual de Pernambuco.  Ao lado de quatro outros realizadores e estudiosos do audiovisual no nordeste, compomos a comissão julgadora, indicada na maioria pelo próprio setor audiovisual do Estado, afim de selecionar projetos dentre o farto interesse e qualidade demonstrados, além da diversidade de propostas.

Com pouquíssimas exceções, todos os projetos mereceriam ser apoiados em sua realização – como uma roupa que é pra todos os filhos, mas em cada um faz-se necessário pequenos ajustes.

Mesmo falando de um orçamento volumoso para o setor – R$ 4 milhões na edição 2008/2009 – a escolha é sempre difícil e tantas vezes penosa, já que a demanda é mesmo maior que a oferta. Somados todos os valores, seriam necessários cerca de R$ 24 milhões para responder a esta crescente busca por fomento.

Dividido nas categorias Apoio e Manutenção de Cineclubes (uma conquista dos novos núcleos que se formam no Recife e interior), Curta-Metragem, Difusão e Formação, Longa-Metragem e Produtos para TV, pudemos acessar projetos já próximos da fixação em película ou suporte digital, àqueles prontos para saírem do papel; as idéias insurgentes à procura de novos dados para ganharem corpo e outros que tem na transmissão do conhecimento pela imagem, palavra e ação seu sentido maior. Da primeira fase, foram 72 os selecionados para o pitching – defesa oral dos projetos que aconteceu entre os dias 9 e 12 de março.

E o que podemos vislumbrar no novo cenário em configuração? Dentre as temáticas, Recife é grande estrela. Vista sob o viés do passado idealizado ou da metrópole tropical, a cidade é reverenciada continuamente – já não são os pernambucanos também grandes adoradores (os maiores!) de seus símbolos de identidade?! Essa identidade, massa em contínuo deslocamento que muitos querem definir enquanto outros preferem apagar, tornou-se uma ‘frente de batalha’ em Pernambuco. Tudo que seja da ‘cultura do lugar’ parece ter espaço no imaginário coletivo da população – dos folguedos populares as datas magnas.

O filme pernambucano, compreendido aqui de forma expandida, deixa entrever esse interesse (preocupação?) latente por uma reflexão sobre o intrincado espaço urbano: a diferença, a convivência e a solidão. Ao lado do descontentamento ou apenas um indispensável olhar crítico sobre a realidade, situa-se à poesia, o cultivo à memória dos homens vivos e mortos; as lendas urbanas refeitas.

A classe média recifense desponta como tema para algumas realizações. O fetiche pelas imagens, a felicidade do status quo e o uso da tecnologia no cotidiano dão vazão à definição do imaginário desse grupo social. Seria o início do mapeamento de uma ‘geografia de classes’ da urbe nordestina? Talvez seja apenas a classe mesma em busca de auto-estima há muito ida.

Outra vertente desloca-se para as ‘raízes da tradição’ – tubérculos de origem cultural no fundo e forma – também bastante visível nas temáticas e proposições. Rituais e ritos afro-brasileiros, indígenas, o patrimônio imaterial e material (bem e mal acabado), a história oral e oficial são revisitadas continuamente sob a perspectiva do olhar da câmera e de tudo que daí deriva.

A televisão, ao menos se depender do fomento estadual, está bem representada com os produtos que devem espalhar-se em médios e pequenos formatos pelas grades das TVs públicas do Brasil. O formato Interprograma, quando vivemos a difusão de conteúdos em velocidade febril, mostra-se sensato tanto para a TV quanto para dispositivos portáteis – campo ainda pouco explorado pelos produtores locais. Para a tela pequena, merecem destaque ainda inciativas voltadas a dar maior visibilidade para ações ambientais, propondo-se a esclarecer o público sobre temas pertinentes.

A formação é uma das pernas indispensáveis de um projeto audiovisual que se proponha duradouro. É de se esperar que os jovens, especialmente de escolas públicas e áreas carentes (o incentivo indo para onde mais se precisa dele) tenham acesso a um conhecimento qualificado – porque proposto por agentes culturais reconhecidos por sua atuação e

A manutenção de uma rede audiovisual (como falar em ‘mercado’ em tempos de crise capitalista-existencial?) que seja sustentável e equilibrada sobre o tripé formação – produção – difusão parece ser um resultado necessário em todo o percurso. Filmando em digital ou em 16mm, o exercício contínuo sedimenta bases para um tão desejado pólo audiovisual em Pernambuco. Ver-se e deixar-se ver são pontas que se enlaçam.

Com a seleção finalizada, o anúncio dos premiados acontece nos próximos dias. Para conhecer os projetos pré-selecionados e aqueles que receberão o fomento, acesse a página da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

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