Um mapa das divergências do G-20

Nos preparativos para o encontro de 2 de abril, parecem estar em formação três grandes blocos. A novidade: além dos EUA e da Europa, também os BRICs podem aparecer com face própria

Os desmentidos foram tantos que talvez tenham provocado efeito contrário ao pretendido. No último sábado (14/3), o presidente dos EUA, Barack Obama, o premiê britânico, Gordon Brown e a chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, deram declarações ou emitiram comunicados à imprensa para negar que houvesse divergências nos preparativos para a reunião do G-20, marcada para 2 de março. O comunicado oficial do encontro (ver em nosso clip) tentou reproduzir a impressão de que há harmonia entre as partes.

Os sinais de desentendimentos haviam surgido poucos dias antes, em meio a uma reunião de ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais das vinte nações do grupo, realizada em Londres. Falando em Washington, e coerente com o que tem feito nos EUA, Obama pronunciou-se a favor de um esforço coordenando internacionacionalmente para estímulo dos Estados à economia. A medida parece cada vez mais necessária, após os novos dados que revelaram, semana passada, queda abrupta da produção, em diversos países. Mas esbarra em posturas como a da União Europeia, cujas instituições continuam a reproduzir as políticas neoliberais, indiferentes à crise (ver post sobre a paralisia do bloco diante do das dificuldades do Leste Europeu). Ministros do Velho Continente afirmaram, em resposta a Obama, que eventuais estímulos devem ser definidos em cada país — e não em articulação global.

O terceiro ator é o que representa a maior novidade. Às vésperas da reunião dos ministros e presidentes de BCs, repreesentantes do Brasil, China, Rússia e Índia reuniram-se em Horsham, uma cidade de 50 mil habitantes nas cercanias de Londres. Emitiram, ao final do encontro, um documento conjunto. Pouquíssimo divulgado na imprensa internacional, o texto (leia em nosso clip) está longe de propor a redistribuição internacional da riqueza. Mas sustenta pontos importantes. Exorta as economias mais poderosas a coordenar investimentos internacionais, inclusive transferindo fundos às nações mais pobres — onde os efeitos da crise podem ser trágicos. Enfatiza a importância de re-regular os mercados financeiros — “inclusive as instituições que compõem o ‘sistema financeiro das sombras'”. Sustenta a necessidade de “rever o papel e o mandato do FMI, para adaptá-lo a uma nova arquitetura monetária e financeira global”. Sugere também, “uma segunda fase de reformas na representação do Banco Mundial”.

Em parte, pode ser retórica. Mas a reunião-surpresa dos BRICs foi imediatamente seguida por duas iniciativas importantes, em que os governantes do bloco agiram como protagonistas. No sábado (14/3), ao se encontrarem em Washington, Obama e Lula deram declarações sintonizadas, em favor de ações reais do G-20 contra a crise. Dois dias depois, uma nota oficial emitida pela presidência da Rússia, e também dirigida ao G-20, pediu “revisão profunda” da ordem econômica internacional — apontada como  “obsoleta e unipolar”.

Seria devaneio esperar do G-20 decisões que mudem as lógicas da economia mundial. Faltam ao grupo, legitimidade e vontade política para tanto. Auto-convocado, ele na prática exclui da busca de saídas para a crise mais de 200 nações, além de excluir as sociedades civis e os próprios parlamentos. A maioria dos governos que o compõem continua executando, em seus territórios, o mesmo projeto que provocou desastre econômico e risco de colapso ambiental. Mas os últimos fatos também indicam que não se trata, ao menos até o momento, de um grupo coeso. Compreender as contradições entre os seus componentes e eventualmente explorá-las, em favor de mudanças reais, pode se tornar um exercício cada vez mais fascinante.

Mais:
> O G-20 é composto por todos membros do G-8 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia) mais  União Européia, África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, China, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, México e Turquia.

> A rede Bretton Woods Project publicou há dias  relatório circunstanciado sobre posições expressas (formal ou informalmente) por autoridades dos países do G-20 sobre os principais temas da agend do grupo. O documento está em nosso clip de hoje.

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2 Responses to “Um mapa das divergências do G-20”

  1. […] na capital inglesa, a partir de 2 de abril, e que parecem envoltos em graves divergências (veja post […]

  2. […] na capital inglesa, a partir de 2 de abril, e que parecem envoltos em graves divergências (veja post […]

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